RÚSSIA & CORONAVÍRUS. 2 MESES DEPOIS

Bem, passaram-se 2 meses desde que escrevi sobre a situação do coronavírus na Rússia (leia aqui) e muuuuitas coisas aconteceram e tenho ouvido algumas perguntas como: “Dizem que a situação aí está ruim mas não falam sobre os números”. “Eu não confio no Putin e nos números da Rússia”. “Vocês também estão em quarentena?”. “Os russos seguem a quarentena?”. “O número de mortos é realmente baixo?”. “A Rússia está recebendo turistas?”. “A economia daí também está enfrentando problemas?”. “Como está aí agora?”.

Vamos lá.

Dizem que a situação aí está ruim mas não falam sobre os números”.

O número de contagiados é bastante alto e subiu rapidamente por causa de um fator fundamental: testes.

Por muito tempo o governo, por querer passar uma imagem de tudo sob controle ao mundo, não tomou medidas internas como realmente controlar as quarentenas dos que chegaram de viagem ou mesmo conversar com a população. Estávamos todos circulando normalmente. Quando as restrições vieram foram tímidas, somente pedindo à população para evitar sair. Até que os testes massivos começaram. E aí sim soubemos da realidade que o contágio já era bastante. A empresa Yandex, que tem o monopólio sobre a app de entregas e corridas de taxis aqui, ofereceu entregar gratuitamente em Moscou 100 mil testes. Bastava pedir pela app. Isso ajudou muito e foi quando os números oficiais dispararam e soubemos que nada estava sob controle como se dizia.


Dados Oficiais de 08 de Abril e de 10 de Junho de 2020.

Eu não confio no Putin e nos números da Rússia”

O número de mortos é baixo perto do número de contagiados, mas é preciso ter cuidado com esses números também já que a Rússia faz uma contagem diferente dos demais países. Aqui conta-se como óbito por coronavírus somente as pessoas que não tinham nenhuma doença e que adoeceram e morreram em decorrência direta do vírus. Por exemplo, as pessoas diabéticas que contraíram o vírus, tiveram complicações e morreram, em seus óbitos está outra causa mortis. Isso gerou – e ainda gera - bastante controvérsia entre os médicos. Uma coisa é alguém contrair o vírus e ser atropelado por um carro. A causa mortis será em consequência do atropelamento e não pela pessoa ter o vírus. Outra é alguém ter uma doença controlada, contrair o vírus e de repente piorar ao ponto de entrar em óbito.

Vocês vão perceber que a imagem inicial sobre os números estava sobre o mapa da Rússia e agora é só o gráfico. Além dessa controvérsia sobre os certificados de óbito, alguns estados decidiram sair da contagem oficial na metade de maio porque se irritaram por estarem passando as informações corretas aos órgãos oficiais e estes estarem divulgando números menores. Por ex., um estado informou os números de novos contágios, recuperados e 14 mortes por coronavírus mas no dia seguinte o governo nacional havia contabilizado somente 7 mortes. Em outros estados aconteceu o mesmo e eles preferiram sair da contagem oficial do governo nacional e divulgarem seus dados de forma independente. Com isso, é possível perceber que os baixos números de mortos pelo novo vírus é por demais controverso e por isso tantos países europeus - e alguns especiaistas russos - têm criticado a Rússia dizendo que está passando uma falsa sensação de segurança ao povo.

Entretanto, independente de toda essa maquiagem com os números, há que dizer também que o governo se preparou para o vírus. Construiu um hospital nos moldes do hospital chinês somente para o tratamento de pessoas com coronavírus nos arredores de Moscou. Preparou hospitais, ambulâncias, aumentou insumos, tanto que aqui em nenhum momento faltaram máscaras ou álcool em gel, por exemplo. Tudo isso ajudou e muito para que os hospitais não entrassem em colapso. Por isso, acredito que os números de mortes não sejam tão estratosféricos, porém também não são tão baixos como os divulgados.

O número de mortos é realmente baixo?”

Foi informado que em St. Petersburgo, em maio, houve 30% mais mortes que o mesmo período nas últimas três décadas e em Moscou 60%. Porém, há uma negação oficial de que estes números tenham a ver com o coronavírus.

Complementando a pergunta anterior vou dizer o que está acontecendo agora em junho, já que acabou o feriado nacional e desde 01 de junho começou a primeira fase.

Na última semana de maio o governo anunciou algumas mudanças na contagem oficial a partir de junho. Testes somente em casos graves. Todos positivos que sejam assintomáticos não serão contados. O governo e seus especialistas disseram saber que eles contagiam, mas mesmo assim não serão contados como contagiados. E os positivos com poucos sintomas, que não precisam ser internados, também não. Além disso, a Yandex já suspendeu os testes gratuitos. Com isso, acredito que em poucas semanas os números oficiais cairão bastante e passará uma ideia de situação melhorando.


Vocês também estão em quarentena?”

A Rússia nunca esteve em quarentena. Um ponto muito importante é que aqui nunca foi declarada uma quarentena oficial e sim um feriado-nacional-não-trabalhado-remunerado que começou no dia 28/03/2020 e foi prorrogado até 31/05/2020 com muitas regras e proibições com a intenção de manter o distanciamento social para evitar a propagação do coronavírus. Qual é a diferença? Vou responder na próxima pergunta. Mas já adianto que a parte do "remunerado" não funcionou.

E desde 12 de maio é obrigatório o uso de máscaras e luvas nos transportes públicos e locais fechados. Na via pública também era obrigatório mas agora, em junho, é apenas pedido que continuemos usando os dois e muita gente está realmente usando e mantendo um distanciamento nas ruas.


A economia daí também está enfrentando problemas?”

Ao contrário dos países que adotaram oficialmente a emergência sanitária e declararam quarentena - e por isso estes governos puderam fazer acordos para diminuir os valores dos serviços básicos (como água, luz, gás e telefone), criar pacotes emergenciais e até mesmo a proibição de cancelamento e corte destes por não pagamento - aqui não houve descontos nestes serviços e nem a ampliação do crédito bancário para tentar pagá-los, tornando a vida de muitas pessoas – principalmente dos comércios e micro empresas – complicadíssima.

Esse é um dos problemas quando o presidente do país não declara oficialmente a quarentena como resposta à crise sanitária. Sem isso, os bancos e grandes cias de serviços não têm motivos para criar pacotes de descontos ou empréstimos com taxas reduzidas e as pessoas que precisam fazer o distanciamento social sem “quarentena” pagam as contas normalmente, e mais altas, pois o consumo aumentará substancialmente durante o período em que estiver em casa. Resumindo: ao não declarar a quarentena, o líder do país sabe que estará endividando ainda mais a população, pois como são serviços básicos, a parcela que não está podendo pagar suas contas terá que fazer um acordo e pagá-las, com taxas de juros normais, porque não ficará sem água, luz, gás e até internet. E quem pode pagar em dia pagará muito mais por algo que não estava em seu plano de gastos mensais e as empresas ficam felizes porque seus bolsos vão aumentar substanciamente com essa situação sem ter uma “obrigação social”.

Quando o governo russo declarou o feriado nacional, os empregadores pagaram o mês de março e as micro empresas e comércios optaram diretamente por dispensar os funcionários a partir de abril. Em alguns (muitos) casos foi feita uma troca: manter o emprego para quando tudo voltar ao normal e não pagar estes meses de feriado e outros diretamente foram dispensados aumentando os índices de  desemprego e o governo não pôde criar um pacote de contenção econômica pois, oficialmente, não existiu quarentena ou caráter excepcional no país.


A Rússia está recebendo turistas?”

Não. Desde 18 de março o país fechou suas fronteiras e proibiu a entrada de estrangeiros. O governo anunciou a previsão de reabrir as fronteiras e os aeroportos a partir de 15 de julho. Porém, só irá receber estrangeiros que venham estudar, visitar familiares e por tratamentos médicos. Ainda não está falando de receber turistas nesta data e sim, talvez, em setembro.


Como está aí agora?”

Confuso. Na última semana de maio, quando muitos esperavam uma nova extensão do distanciamento social por causa dos números altíssimos de contágio, Putin surpreendeu a todos, inclusive deixando o Primeiro Ministro e o Prefeito de Moscou em situação bastante delicada. Estes estavam anunciando várias medidas restritivas para a flexibilização e reabertura da atividade econômica e o presidente simplesmente fez três anúncios seguidos que confundiu tudo. No primeiro, disse que o período do feriado nacional acabaria no domingo 31 de maio e a partir de 01 de junho começaria a fase 1. No segundo, ordenou que as cidades-heróis (são 8) se preparem porque o Desfile do Dia da Vitória (que foi adiado de 09 de maio para setembro) acontecerá no dia 24 de junho. E no terceiro, informou que a votação para a emenda constitucional que permitirá – ou não – Putin permanecer no poder até 2036 (que foi adiada de 22 de abril para setembro) será no dia 01 de julho.

Ou seja, além de uma volta à normalidade muito rápida haverá em um mês dois grandes eventos de aglomeração de pessoas nas ruas do país. (Lembrem-se que eventos que reúnem mais de 50 pessoas estão proibidos até setembro e isso afetou muitíssimo tanto o turismo quanto os negócios locais. Daí o pessoal do turismo e empresários estarem subindo pelas paredes com estes anúncios). Muitos reclamam da rapidez de como estão acontecendo as coisas. Todos comentam que o governo quer que tudo pareça normal até o dia da votação: economia reaberta, números de contágio reduzido e desfile patriótico para exaltar os ânimos dos russos. Está chovendo críticas nos jornais. Nas redes sociais, muitos russos/as estão comentando bastante, com algumas discussões acaloradas.

Na primeira semana de junho escritórios (advocacia, contábil, etc) foram reabertos. Nesta semana, as lojas de sapatos e roupas menores; na terceira devem reabrir museus, salões de beleza, barbearias, restaurantes e bares e na última semana de junho os parques e piscinas junto com o Desfile da Vitória.


E a população russa o que pensa sobre o coronavírus?

A grande maioria está mantendo o distanciamento social e desde 12/05 é obrigatório o uso de máscara e luvas em via pública. Os jovens, menos de 30 anos, são os que mais saem agora, principalmente com os dias ensolarados que têm feito. Muitos acreditam que os russos são imunes a esse vírus. Vide a fala do próprio Putin: há três semanas ele disse que uma das respostas ao número baixo de mortes por coronavírus na Rússia é porque “o povo russo é distinto”, “e por isso são imunes a esse vírus”. E é isso que muitos pensam. Eu já ouvi isso e fiquei pasma! A maioria aqui realmente acredita ter imunidade à doenças e que esta é uma doença de velhos. 

Este é um ponto bastante delicado que deve ser entendido com calma já que ele norteia um pouco das medidas que serão tomadas quando da reabertura do país. Alguns jornalistas e políticos já apontam, com preocupação, para esse novo surto de xenobia contra os estrangeiros por causa do coronavírus. E ao enfatizar essa ideia de “um povo distinto” esse discurso só ganha força e de forma rápida. Para o verão muitos defendem manter as fronteiras fechadas e a Rússia para os russos.

Um ponto que deve ser levado em conta – e eu já comentei isso com alguns russos e eles concordaram comigo – é que os russos são muito isolados do resto do mundo. Poucos têm amigos ou conhecidos fora daqui para saber (ou sequer ter interesse) da situação em outros países. A maioria, mais de 90%, só fala russo e isso também limita o acesso a notícias de outros países por iniciativa própria. Friso aqui o por iniciativa própria porque a internet está aí e, apesar do bloqueio a muitos sites, há acesso a muitos meios de notícias internacionais. Acontece que não há interesse. Muitos só souberam da situação na Itália e na Espanha porque foram casos excepcionais.

Vocês podem acompanhar estas informações nos sites dos jornais The Moscow Times e TASS RUS.


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